O muro do Sacrecré?

Quando não havia internet letra de música era no ouvido. “No meio da noite vitrola rolando” era beleza, mas quase todo mundo trocava o “tocando BB King” por “tocando de biquíni sem parar”. Uma amiga me disse que ia na seção de Lp’s das grandes lojas da época, como Mappim e Mesbla e ficava lendo as letras nos encartes dos discos. Minha prima escrevia cuidadosamente as letras e arquivava numa pasta, até me deu uma destas de presente uma vez. Mas a maioria cantava como entendia mesmo, como o meu camarada que cantava “esperando a volta do irmão doentinho” e não do Henfil”. Eu adorava ouvir o Tavito cantando ‘Rua Ramalhetes” e imaginar o que é que se podia dizer para uma garota, ao pé do ouvido, que lhe fizesse “tremer dentro do vestido”, mas me matava a parte do “muro do sacrecré”. Nem sei quantas horas perdi tentando imaginar o que poderia ser o tal “sacrecré” e o diabo é que eu não conhecia nenhuma palavra sequer parecida que pudesse fazer algum sentido. Um belo dia andando de ônibus pela região da consolação em Sampa, por acaso eu vi o letreiro de um hospital e nem sei descrever que tipo de emoção foi aquela (adoraria poder ver a minha cara) enquanto gritava mentalmente: É 
Sacré-Coeur! Sacré-Coeur! O sagrado coração, gente! Como eu não pensei nisto antes? E estava desfeito um dos maiores mistérios da minha parca e porca existência…

Notas: o Sacré-Coeur do Tavito é o colégio tradicional carioca. As músicas citadas no artigo são: Noite do Prazer – Claudio zoli,  O bêbado e o equilibrista – Ellis Regina e Rua Ramalhetes – Tavito.

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