Direitos, volver!

Eu nasci na década de 1970, bem no meio dela. comecei a me entender por gente lá pelo final dos anos 80. Era uma era de novidades. os direitos civis , a comunicação e a tecnologia moderna floresciam enquanto eu ia me tornando adulto, essa geração teve esta conjuntura única para testemunhar.

Aos 14 anos de idade eu comecei a andar sozinho por São Paulo para estudar no centro da cidade, ali na Rua Quintino Bocaiúva e morria de medo de puta, bêbado, maconheiro e viado. Naquela época quando alguém queria xingar e não tinha motivos, chamava o camarada de “vadio”, que era quem não trabalhava e isto (de não trabalhar) até cadeia dava. As informações chegavam pela TV, pelo rádio e pelo jornal de domingo e todo mundo só sabia o que não podia ou devia fazer.

Eu vi a inflação, a repressão e o vinil virarem história, o CD , os grupos de extermínio e o computador de mesa nascerem e morrerem, as mulheres colocarem as manguinhas e perninhas de fora, os gays arrebentarem as portas dos armários, a internet e os celulares nascerem e se popularizarem, a opinião se libertar, as letras de música refletirem o lado menos moralizado e a TV mostrar o lado menos beatificado do brasileiro, o negro se autodeclarar e alcançar direitos, a desigualdade arrefecer um ou dois degraus, mas não vi o povo aprender a votar.

Achou ruim o PMDB e votou na novidade, depois derrubou a novidade e deixou o PMDB; votou na estabilidade achou ruim a estabilidade e votou na esquerda, derrubou a esquerda e deixou o PMDB. Desde a redemocratização o PMDB esteve em todos os governos e assumiu  os que o povo não quis deixar seguir, que são -igualmente- todos menos FHC e Lula.

Se tem uma coisa boa em termos chegado a era dos direitos e da informação, esta coisa foi a decretação da decrepitude do preconceito. Ter preconceito é feio e imoral, antiquado até podendo ser criminoso. seria um mundo formidável este com democracia a plenos pulmões, economia a todo vapor e direitos,  liberdades e igualdades aos quatro cantos do país. Se os governantes escolhidos pelo povo tivessem levado a sério a politica e a economia, nossa democracia estaria bem agora saboreando todas as vitorias e consolidações e sendo admirada mundo afora, até um premio nobel já poderia estar na estante do orgulho nacional. Mas, a economia degringolou por culpa do seu voto. e aí meu amigo…

Em casa que falta pão todo mundo fala e ninguém tem razão. Com a economia morro abaixo e a corrupção morro acima, só podia ficar ruim para todo mundo e neste cenário obscuro as reclamações começam pelas mais óbvias e pontuais mas vai até onde não se sabe mais e muita gente aproveita para tirar da mala empoeirada guardada no porão da memória a sua metralhadora cheia de magoas.

A pessoa puxa pela memoria o tempo em que o bolso esteve mais cheio e via de regra associa a sociedade da época. Bom era o tempo em que havia emprego e ninguém ouvia falar de corrupção. e o que não havia? não havia tanta liberdade (inclusive de imprensa), não havia 12654471_1100591176628483_6989958894365080798_nnegro tomando vaga de branco por cotas, não havia gay demonstrando mais afeto que casal hétero, auxilio do governo pra tudo quanto é tipo de gente (até preso) não havia, como não havia empregada pegando o mesmo voo que o patrão e se a mulher enchia era só dar um sopapo.

Então para resolver tudo isto é preciso voltar a este tempo. Só que o brasileiro continua não sabendo votar, então escolhe um caminho ideológico que promete acabar com quantos direitos  puder e os meus netos talvez cheguem aos 15 anos morrendo de medo de puta, bêbado, viado e maconheiro e se tornem adultos que sabem apenas o que não podem e não devem fazer, o diabo é que provavelmente estas coisas aí não vão trazer o seu emprego de volta…

 

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